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Feliz aniversário, filho
(Ronaldo Fonseca Cavalcante)
Subserviência
Eu já mencionei em um dos meus poucos textos sobre o fato de Rousseau ter dito, em outras palavras, que o homem vive para satisfazer seus superiores. E quando disse que "o homem nasce bom, mas a civilização o corrompe", eu acho que talvez exista aí uma ligação com o que escreveu Aristóteles em Política, onde o homem é um animal na sua essência político e sociável. O próprio J.J. sucumbiu ao seu pensamento; basta ler a introdução do seu discurso sobre a desigualdade na academia de Dijon. Embora não seja ele termômetro de caráter, ética, racionalidade e procedimento, influenciou, na qualidade de gênio emocional, a evolução social da humanidade como grande filósofo.
A subserviência talvez venha do fato de ser o homem um indivíduo que depende de outros para tudo na vida: nascer, crescer, educar-se, formar opinião e atingir seus objetivos (também influenciados por outros). Inicia sua sociabilidade na família, estendendo-se para outras dimensões até culminar nessa famigerada globalização onde, através do poder da mídia, ele pode ter contato com todo tipo de civilização, invadindo-a, chocando-se com aquilo que se desconhecia ou sendo influenciado por ela.
Muitas vezes confundido com puxa-saquismo, a subserviência deriva do medo. Medo de alguma coisa. Principalmente do medo de perder alguma coisa. Em segunda estância teríamos o comodismo ou uma vontade de permanecer na situação atual, caso aceite determinadas imposições numa boa (que não passa de uma derivação do medo), é o que se pode ver em uma parte do discurso de Rousseau ¿O primeiro que, tendo cercado um terreno, se lembrou de dizer: Isto é meu, e encontrou pessoas bastante simples para o acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou tapando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes:¿ Livrai-vos de escutar esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos, e a terra de ninguém! ¿.
Quando sabemos uma pessoa superior, e aí não importa a definição de superioridade (pode ser chefe, comandante, político, intelectual e, o mais falso dos superiores assimilado pela maioria dos brasileiros que é o estrangeiro, principalmente argentino e americano do norte) a nossa tendência imediata é a de participar de uma cerimônia de lava-pés mesmo com prejuízo material, físico, financeiro ou moral.
Em quantas repartições, setores e locais de trabalho se ouve falar mal dos chefes e imediatamente, na sua presença, são modificadas essas opiniões? Quantas pessoas se sentem prejudicadas por outras (tendo ou não razão) e, se estas são superiores, abanam o rabo com uma simples tapinha nas costas ou um bom-dia festivo?
Não vou mencionar o que acontece atualmente na política brasileira, no emaranhado de corrupções e no que acontece nas altas esferas, para dar uma força à minha tese, porque nunca esgotaria o assunto. E nem pensar em falar das relações Brasil-Estados Unidos, Brasil-Europa ou coisa que o valha, porque aí já é covardia. Vou falar apenas de um exemplo prático na esfera da classe chamada média baixa versus personalidades.
Estava eu numa rua da minha cidade (Salvador-BA), degustando essa famosa iguaria que é o acarajé recém tirado da frigideira por uma dessas baianas comuns que se encontra em toda esquina, quando de repente deparei-me com uma turba acompanhando um certo político influente na esfera federal e seu staff (formados por deputados, vereadores e outros bichos estranhos). Pude observar que estavam inspecionando alguma dessas obras que liga o nada a coisa nenhuma, chamado ironicamente de transporte de massas. Logicamente o mais graduado não resistiu ao aroma do quitute e interrompeu a visita para experimentá-lo. No que foi seguido por outros deputados, não me causando nenhuma estranheza.
Após a breve pausa e sem antes mesmo do político (ou de algum boca-livre) esboçar ao menos um gesto de saldar a dívida com a baiana, esta saltou logo dizendo: ¿é por conta da casa doutor¿. Curioso, resolvi acompanhar o séqüito quando, poucos minutos mais tarde , sentindo o efeito da pimenta, eles pararam num barzinho (barzinho mesmo, desses de ovo colorido cozido no dia anterior que ainda teimava em permanecer na estufa de vidro desligada) para tomar refrigerante.
Não é que aconteceu o mesmo com o dono do bar, um sexagenário que ainda se achou bafejado pela sorte quando os magnatas pararam no seu ¿estabelecimento¿ ?. E ainda teve a generosidade de oferecer uma rodada de cafezinho da engordurada garrafa térmica que estava sobre o balcão rodeada por alguns copos convencionais de cachaça. Se eu dissesse que um dos caras-de-pau ainda tomou o tal café, mesmo fazendo careta, alguém acreditaria?
Aí, sim; eu estranhei e fiquei até indignado. Como poderia uma mulher que vive do seu trabalho de comércio, dispensar o pagamento de várias unidades do seu produto para pessoas que poderiam e deveriam (se tivessem vergonha) pagar bem mais pelo mesmo?
Não me contive. Perguntei ao dono do bar e à baiana do acarajé (depois de tentar sem sucesso ser agraciado pela mesma oferta dos políticos) qual a razão do procedimento deles. Foram praticamente unânimes na resposta: ficaram com receio de cobrar pelos produtos e algum daqueles puxa-sacos de plantão marcarem eles para uma visita oficial de fiscalização. E ainda por cima os concorrentes ficariam com inveja deles por ter servido a tão significativas personalidades (e olhe que eles nem sabiam de quem se tratava). Então cheguei à conclusão de que o medo de alguma coisa é a causa principal da subserviência da humanidade ou do homem querer sempre agradar seus superiores, com teria dito J.J.Rousseau.